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domingo, 20 de abril de 2008

"Olhando seus cabelos tão bonitos, beijo suas mãos e digo: Meu querido, meu velho, meu amigo"...


Existem pessoas que nascem viradas pra lua, têm a vida que pediram a Deus e às vezes nem reconhecem. Hoje ela estava lembrando de tempos que foram embora e jamais voltarão. Lembranças de uma infância feliz. Flashs que jamais vão ser apagados, enquanto a saúde for boa. Ela morava em uma casa que tinha um enorme pé de Jambo que largava flores lindas e cor de rosa na época em que os frutos chegavam... A avó varrendo aquele tapete rosado (igualzinho o da imagem) todos os dias. O tio magrinho e muito branquelo em cima do pé e jogando os Jambos na bacia que ela segurava cheia de responsabilidade. Entre essas lembranças outras muito fortes de uma pessoa que ela amou como um pai e que nem deu conta quando ele se foi. Vovô Domingos, uma pessoa ímpar e indescritível em poucas ou muitas palavras. Seu avô teve muitos filhos a maioria com sua avó, e outros tantos fora do casamento. Ela não conhece nenhum que não sejam os de casa. Que bom que ela conheceu seu avô. Antes de ela nascer seu avô era um ótimo comerciante, isso é evidenciado pela quantidade de empreendimentos diferentes com os quais se envolveu (Padaria, Carne-Assada, Madeireira), isso dava dinheiro e ele nunca passou dificuldades até gastar tudo o que tinha. Depois vendedor de remédios homeopáticos, os quais ele mesmo fabricava, vendia e garantia. Os consumidores (nesse caso pacientes) ficavam realmente bons e sãos... A fé move montanhas! Um dia, ela tinha entre sete e oito anos e ele não era mais casado com sua avó. Mesmo assim vivia na casa dela, lanchando, almoçando, conversando ou fazendo qualquer outra coisa. Ele chegou andando devagar de calças tipo social cinza e camisa clara, com um guarda-chuva que fazia parte da sua vestimenta, óculos grandes e sapatos pretos. Conversou, reclamou que ela e sua prima não sentavam com postura no sofá e dançavam muito. Logo após sentou-se na mesa, lanchou e pediu um pedaço de queijo e bolo, mas como ele sofria de diabetes e há tempos não comia certas coisas a tia dela disse que não daria. Sua tia foi à cozinha, ela e sua prima continuaram a ver televisão. Alguns minutos se passaram e quando olharam, ele estava com última fatia do bolo de chocolate na mão, bolo esse que pouco tempo atrás estava inteiro. Ele levava carões e apenas ria. Outro dia ele prometeu uma caixa de chocolates e umas semanas depois trouxe o presente. Ela não lembra de muita coisa mais.
[ESPAÇO]
No dia em que o Brasil foi Tetra em Julho / 94 havia festa em todos os lugares e sua casa era só apreensão, ele não melhorava, estava no hospital há quase um mês... Ela vestia um conjunto de calça e blusa (mangas compridas) com estampa de peixinhos, alguém disse que ela parecia estar vestida num saco de batatas. Ficou com suas amigas no corredor do prédio olhando o bolão dos adultos pra saber quem ganharia a copa naquele dia Brasil ou Itália. Sua mãe deu uns trocados e ela foi apostar também. Alguém avisou, havia necessidade de sair em busca de doadores de sangue pra ele. Andaram em muitos lugares e encontraram poucos doadores. Fica a incógnita se ele resistiria caso encontrassem mais alguns, ela acha que não, o estado dele já era bem complicado, mas ainda assim, naquele dia fez uma promessa. Decidiu que no dia, exatamente no dia em que completasse 18 anos iria ajudar alguém que estivesse precisando e se tornaria uma doadora assídua de sangue. E assim aconteceu. Até hoje faz, periodicamente. Voltaram para casa e nada mais poderia ser feito. Os fogos brilhavam no céu de Natal, de todo o Brasil. Éramos Tetra, a noite seguiu acompanhada de festas, bebedeiras e em sua casa, apenas lágrimas. Agora ela vestia um pijama cor de rosa, de manga longa com a estampa do Mickey Mouse, sua mãe contava histórias para todas as crianças da idade dela (seus primos). A casa estava tumultuada e não a deixaram ir ao velório nem ao enterro. Mandou um bilhete que seu tio entregou ao seu Vovô Domingos. Faz esse ano 14 anos que ele se foi, mesmo assim ainda é tema de conversas e boas risadas...

2 comentários:

Donaella disse...

Oi Camila, que bom que você gostou de cantarolar um pouquinho comigo!!
Também gotei muito do seu canto e senti um frescor intenso, tanto nas imagens quanto nos escritos.
Voltarei sempre!!
Sobre o texto dos jambos, deu uma pontada nas minhas recordações ... meu jardim era exatamente assim numa determinada época do ano: um tapete cor de rosa!:)
Obrigada por me fazer lembrar!

Camila Nobre disse...

aiaiia..

você fez meus olhos se inundarem de lágrimas!!
Que lindo, muito emocionante como você escreve!
Adooreei muito!