Nada de tristeza, nada de lembranças saudosas, nada de melancolia. Hoje ela chega para contar uma situação não muito comum, e que muitos nem ao menos entendem. Ela saiu de casa como de costume e foi ao shopping como fazia sempre, estacionou o carro em um dos pisos (entre tantos) e seguiu seu passeio, sozinha. Comprometeu-se de andar pouco, ser breve e escolher o que iria levar rapidamente. Ela precisava comprar um presente e algumas coisas mais. Andou, comprou, andou mais um pouco, olhou vitrines. Recebeu uma ligação, um convite para sair. Iria dar tempo, só bastava ela ir para casa, tomar um banho breve e colocar uma roupa legal. Isso levaria pouco mais de meia hora (ela se arruma rapidinho), não fosse o seu desencontro com o carro que ela outrora deixou no estacionamento. Ela tinha certeza que sabia onde ele estava, que papelão, que memória fraca, quanta falta de atenção. O shopping tinha em torno de cinco pavimentos para estacionar, ela levaria horas pra encontrar o coitado, largado no meio de uma multidão de carros verdes, azuis, vermelhos, brancos. Quanta falta de consideração com o pobre carro azul, de placa ainda desconhecida devido ao pouco tempo de uso. Ela procurou demais, ligou para casa contando o que estava acontecendo e que pena, ninguém podia fazer nada, ligou para o namorado e ele riu, gargalhou, não acreditou. Ela andava atordoada, cheia de pacotes de um lado para o outro sem algum sucesso.
Ela percebeu um rapaz, dentro de um dos tantos carros que estavam lá, parados e sem ninguém. O rapaz percebeu que algo estava errado, mas lá apenas ficou. Ela continuou andando e procurando e ativando o alarme sem parar, pra ver se em meio há tentos carros o dela emitia algum tipo de som...
Nada.
Ela passou umas duas vezes pelo mesmo rapaz que estava dentro do carro, ele saiu e perguntou se ela estava sentindo alguma coisa, passando mal ou precisava de ajuda. Ela riu, um sorriso amarelo e cheio de vergonha, mas o que importava naquele instante era apenas conseguir alguma ajuda. Ela suava demais, a roupa clara agora exibia manchas escuras, o cabelo estava em condições de um atleta após uma competição. Ela contou a situação na qual se encontrava e o rapaz ofereceu ajuda. Ela hesitou por um instante. Ele disse que esperava a mãe que estava no shopping fazendo compras. Ela teve medo, ele ofereceu dar umas voltas com ela no estacionamento, piso a piso pra ver se encontravam algum sinal do carro azul-petróleo, e mesmo receosa ela foi, a ajuda era de grande valia. Andaram e depois de 10 minutos acharam o carro dela. Ainda existem pessoas boas em nosso convívio, e às vezes estão bem perto de nós. O nome do rapaz ela não se recorda, um erro quase imperdoável. Como pode no mundo em que vivemos, em meio a tanta desgraça, ela não lembrar o nome do rapaz que a tirou de uma enrascada como aquela sem ao menos a conhecer? As coisas não são mais as mesmas, a violência está tão grande que a instituição que ainda mais respeitamos e prezamos está decaindo a cada dia. Filho matar pai e pai matar filho está se tornando algo normal e logo aceitável. Mesmo assim ela não lembra o nome do rapaz. Puro desleixo. Encontraram o carro ela agradeceu e foi embora.
Ela não recomenda pegar caronas em lugares públicos, ela não recomenda falar com estranhos, ela teve apenas sorte de encontrar alguém que estava disposto a ajudar. Ela recomenda distribuir sorrisos às vezes, ela recomenda um bom dia pela manhã, ela recomenda sempre que pudermos ajudar alguém que esteja precisando ou não. Ele fez a boa ação do dia. E isso o deve ter feito bem. Faça a sua também.
Observações importantes:A área do estacionamento do shopping é de 127 mil m² com capacidade de vagas cobertas para 3.500 veículos, distribuídas em seis pisos, acesso por elevador à cada um dos andares da garagem.



