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quarta-feira, 23 de abril de 2008

"Nós que passamos apressados pelas ruas da cidades, merecemos ler as letras e as palavras de gentileza"...


Estacionamento do Shopping Midway Mall (Natal/RN)

Nada de tristeza, nada de lembranças saudosas, nada de melancolia. Hoje ela chega para contar uma situação não muito comum, e que muitos nem ao menos entendem. Ela saiu de casa como de costume e foi ao shopping como fazia sempre, estacionou o carro em um dos pisos (entre tantos) e seguiu seu passeio, sozinha. Comprometeu-se de andar pouco, ser breve e escolher o que iria levar rapidamente. Ela precisava comprar um presente e algumas coisas mais. Andou, comprou, andou mais um pouco, olhou vitrines. Recebeu uma ligação, um convite para sair. Iria dar tempo, só bastava ela ir para casa, tomar um banho breve e colocar uma roupa legal. Isso levaria pouco mais de meia hora (ela se arruma rapidinho), não fosse o seu desencontro com o carro que ela outrora deixou no estacionamento. Ela tinha certeza que sabia onde ele estava, que papelão, que memória fraca, quanta falta de atenção. O shopping tinha em torno de cinco pavimentos para estacionar, ela levaria horas pra encontrar o coitado, largado no meio de uma multidão de carros verdes, azuis, vermelhos, brancos. Quanta falta de consideração com o pobre carro azul, de placa ainda desconhecida devido ao pouco tempo de uso. Ela procurou demais, ligou para casa contando o que estava acontecendo e que pena, ninguém podia fazer nada, ligou para o namorado e ele riu, gargalhou, não acreditou. Ela andava atordoada, cheia de pacotes de um lado para o outro sem algum sucesso.
Ela percebeu um rapaz, dentro de um dos tantos carros que estavam lá, parados e sem ninguém. O rapaz percebeu que algo estava errado, mas lá apenas ficou. Ela continuou andando e procurando e ativando o alarme sem parar, pra ver se em meio há tentos carros o dela emitia algum tipo de som...
Nada.

Ela passou umas duas vezes pelo mesmo rapaz que estava dentro do carro, ele saiu e perguntou se ela estava sentindo alguma coisa, passando mal ou precisava de ajuda. Ela riu, um sorriso amarelo e cheio de vergonha, mas o que importava naquele instante era apenas conseguir alguma ajuda. Ela suava demais, a roupa clara agora exibia manchas escuras, o cabelo estava em condições de um atleta após uma competição. Ela contou a situação na qual se encontrava e o rapaz ofereceu ajuda. Ela hesitou por um instante. Ele disse que esperava a mãe que estava no shopping fazendo compras. Ela teve medo, ele ofereceu dar umas voltas com ela no estacionamento, piso a piso pra ver se encontravam algum sinal do carro azul-petróleo, e mesmo receosa ela foi, a ajuda era de grande valia. Andaram e depois de 10 minutos acharam o carro dela. Ainda existem pessoas boas em nosso convívio, e às vezes estão bem perto de nós. O nome do rapaz ela não se recorda, um erro quase imperdoável. Como pode no mundo em que vivemos, em meio a tanta desgraça, ela não lembrar o nome do rapaz que a tirou de uma enrascada como aquela sem ao menos a conhecer? As coisas não são mais as mesmas, a violência está tão grande que a instituição que ainda mais respeitamos e prezamos está decaindo a cada dia. Filho matar pai e pai matar filho está se tornando algo normal e logo aceitável. Mesmo assim ela não lembra o nome do rapaz. Puro desleixo. Encontraram o carro ela agradeceu e foi embora.

Ela não recomenda pegar caronas em lugares públicos, ela não recomenda falar com estranhos, ela teve apenas sorte de encontrar alguém que estava disposto a ajudar. Ela recomenda distribuir sorrisos às vezes, ela recomenda um bom dia pela manhã, ela recomenda sempre que pudermos ajudar alguém que esteja precisando ou não. Ele fez a boa ação do dia. E isso o deve ter feito bem. Faça a sua também.

Observações importantes:
A área do estacionamento do shopping é de 127 mil m² com capacidade de vagas cobertas para 3.500 veículos, distribuídas em seis pisos, acesso por elevador à cada um dos andares da garagem.

domingo, 20 de abril de 2008

"Olhando seus cabelos tão bonitos, beijo suas mãos e digo: Meu querido, meu velho, meu amigo"...


Existem pessoas que nascem viradas pra lua, têm a vida que pediram a Deus e às vezes nem reconhecem. Hoje ela estava lembrando de tempos que foram embora e jamais voltarão. Lembranças de uma infância feliz. Flashs que jamais vão ser apagados, enquanto a saúde for boa. Ela morava em uma casa que tinha um enorme pé de Jambo que largava flores lindas e cor de rosa na época em que os frutos chegavam... A avó varrendo aquele tapete rosado (igualzinho o da imagem) todos os dias. O tio magrinho e muito branquelo em cima do pé e jogando os Jambos na bacia que ela segurava cheia de responsabilidade. Entre essas lembranças outras muito fortes de uma pessoa que ela amou como um pai e que nem deu conta quando ele se foi. Vovô Domingos, uma pessoa ímpar e indescritível em poucas ou muitas palavras. Seu avô teve muitos filhos a maioria com sua avó, e outros tantos fora do casamento. Ela não conhece nenhum que não sejam os de casa. Que bom que ela conheceu seu avô. Antes de ela nascer seu avô era um ótimo comerciante, isso é evidenciado pela quantidade de empreendimentos diferentes com os quais se envolveu (Padaria, Carne-Assada, Madeireira), isso dava dinheiro e ele nunca passou dificuldades até gastar tudo o que tinha. Depois vendedor de remédios homeopáticos, os quais ele mesmo fabricava, vendia e garantia. Os consumidores (nesse caso pacientes) ficavam realmente bons e sãos... A fé move montanhas! Um dia, ela tinha entre sete e oito anos e ele não era mais casado com sua avó. Mesmo assim vivia na casa dela, lanchando, almoçando, conversando ou fazendo qualquer outra coisa. Ele chegou andando devagar de calças tipo social cinza e camisa clara, com um guarda-chuva que fazia parte da sua vestimenta, óculos grandes e sapatos pretos. Conversou, reclamou que ela e sua prima não sentavam com postura no sofá e dançavam muito. Logo após sentou-se na mesa, lanchou e pediu um pedaço de queijo e bolo, mas como ele sofria de diabetes e há tempos não comia certas coisas a tia dela disse que não daria. Sua tia foi à cozinha, ela e sua prima continuaram a ver televisão. Alguns minutos se passaram e quando olharam, ele estava com última fatia do bolo de chocolate na mão, bolo esse que pouco tempo atrás estava inteiro. Ele levava carões e apenas ria. Outro dia ele prometeu uma caixa de chocolates e umas semanas depois trouxe o presente. Ela não lembra de muita coisa mais.
[ESPAÇO]
No dia em que o Brasil foi Tetra em Julho / 94 havia festa em todos os lugares e sua casa era só apreensão, ele não melhorava, estava no hospital há quase um mês... Ela vestia um conjunto de calça e blusa (mangas compridas) com estampa de peixinhos, alguém disse que ela parecia estar vestida num saco de batatas. Ficou com suas amigas no corredor do prédio olhando o bolão dos adultos pra saber quem ganharia a copa naquele dia Brasil ou Itália. Sua mãe deu uns trocados e ela foi apostar também. Alguém avisou, havia necessidade de sair em busca de doadores de sangue pra ele. Andaram em muitos lugares e encontraram poucos doadores. Fica a incógnita se ele resistiria caso encontrassem mais alguns, ela acha que não, o estado dele já era bem complicado, mas ainda assim, naquele dia fez uma promessa. Decidiu que no dia, exatamente no dia em que completasse 18 anos iria ajudar alguém que estivesse precisando e se tornaria uma doadora assídua de sangue. E assim aconteceu. Até hoje faz, periodicamente. Voltaram para casa e nada mais poderia ser feito. Os fogos brilhavam no céu de Natal, de todo o Brasil. Éramos Tetra, a noite seguiu acompanhada de festas, bebedeiras e em sua casa, apenas lágrimas. Agora ela vestia um pijama cor de rosa, de manga longa com a estampa do Mickey Mouse, sua mãe contava histórias para todas as crianças da idade dela (seus primos). A casa estava tumultuada e não a deixaram ir ao velório nem ao enterro. Mandou um bilhete que seu tio entregou ao seu Vovô Domingos. Faz esse ano 14 anos que ele se foi, mesmo assim ainda é tema de conversas e boas risadas...